Luís Martin, o “pai incomparável” de Santa Teresinha

 

Durante a cerimônia de beatificação de São Luís e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, o Cardeal Saraiva Martins, lendo a carta do Papa Francisco, descreveu os dois como "leigos, esposos e pais".

Luís, pai e esposo, sabia que o primeiro dever de um bom pai era ser um bom marido. "Sou sempre muito feliz com ele", escrevia Zélia sobre seu companheiro. "Ele preenche minha vida de ternura e delicadeza. Meu marido é um homem muito santo; quisera que toda mulher tivesse um marido como ele".

"Os nossos sentimentos estavam sempre de acordo", diria ela tempos depois, "e ele serviu-me constantemente de amparo e consolação" [1].

Nos anos de seu matrimônio, de 1858 a 1877, Luís foi um pai e um esposo muito generoso: vendo o sucesso do negócio de rendas de Zélia, ele abandonou a profissão de relojoeiro à qual se tinha dedicado por muitos anos, vendeu o negócio ao sobrinho por um preço modesto e tratou de gerenciar pessoalmente a compra de aviamento para a manufatura. Após a morte de Zélia, ele deixou os amigos em Alençon para dar às suas filhas a benéfica influência dos tios e primos maternos, em Lisieux. Numa época em que o pai era geralmente o "chefe da casa", ele deu às filhas mais velhas livre permissão tanto para cuidar das coisas da casa quanto para ensinar as irmãs mais novas. Não poupou esforços para desenvolver os talentos que elas tinham, provendo-lhes aulas de arte e dando-lhes toda ajuda que estava em suas possibilidades.

Luís Martin foi um homem valente. Na juventude, pertenceu ao clube militar. Por exercitar-se regularmente, acabou se tornando um homem alto e robusto. Nadava bem o bastante para salvar várias pessoas do afogamento, resgatava pessoas de incêndios, e era tão corajoso nas ruas que, se ficasse fora mais tarde que o normal, suas filhas já começavam a suspeitar que ele teria se machucado ao tentar separar alguma briga.

Como pai, Luís criou uma estrutura de disciplina para a vida diária de cada membro de sua família. Durante todas as estações eles assistiam juntos à Missa de manhã. As crianças tinham que comer o que lhes era preparado. Dificilmente perdiam algum dia na escola: em oito anos, Celine só teve duas faltas. Por não gostar de vê-las ociosas, Luís encorajava suas filhas a desenvolverem várias atividades.

Até mesmo seu lado feminino se tinha desenvolvido bem. Quando ficou viúvo, Luís se tornou um pai e uma mãe para suas filhas. Elas diziam: "O coração afetuoso de nosso pai foi enriquecido com um amor verdadeiramente maternal por nós". Muitas vezes ele acompanhava as filhas no caminho de ida e de volta para a escola, escutando pacientemente os relatos de como tinham sido os seus dias. Todas as noites, ele as reunia depois do jantar, confeccionava brinquedos, cantava, contava histórias, recitava poemas e fazia brincadeiras com elas, antes das orações em família. "Com minhas filhas eu sou um Bom-Papai", ele gostava de dizer [2].

Luís tinha um profundo respeito pela vida espiritual de suas filhas. Não apenas dava a elas toda a liberdade para que satisfizessem suas vocações, como ativamente as apoiava no que quer que elas descobrissem a respeito da vontade de Deus para suas vidas, "permitindo ao Criador que lidasse diretamente com a criatura". Empreendeu viagens e gastos para permitir que elas fizessem retiros e consultassem seus diretores espirituais. Num tempo em que muitos pais ficavam furiosos se suas filhas quisessem entrar para o convento, às vezes até impedindo que elas o fizessem, Luís deu livremente o seu consentimento e doou largas somas ao convento em que entraram suas filhas. Quando Maria, a mais velha e sua favorita, lhe confidenciou a sua vocação, ele disse: "Ah... mas... sem você!... Pensei que você nunca fosse me deixar" [3]. Ainda assim, ele lhe deu permissão imediatamente para ir.

Quando a família estava visitando Alençon, antes de Maria deixá-los e Leônia entrar para as Irmãs Clarissas, abruptamente e sem pedir permissão, ele permitiu que ela lá permanecesse e apoiou-a generosamente. Quando o vigário geral da diocese se furtou de ajudar Teresa a entrar no Carmelo, Luís, encontrando-o vários dias depois em Roma, disse com franqueza: "Você sabe muito bem que tinha prometido ajudar-me". Mais tarde, ficou tão impressionado com os talentos artísticos de Celina que quis levá-la a Paris para ter aulas com os melhores artistas. Quando ela lhe revelou, todavia, que planejava tornar-se carmelita depois que ele não mais precisasse de seus cuidados, ele disse: "Venha, vamos juntos ao Santíssimo Sacramento agradecer a Ele pela honra que me faz em escolher Suas esposas em minha casa. Se possuísse eu qualquer coisa melhor, eu depressa ofereceria para Ele." Teresa dizia que a melhor coisa que ele tinha a oferecer era a si mesmo. Quando ficou paralisado e teve que aceitar ser cuidado por um sanatório e depois por sua família, ele se rendeu completamente e ficou profundamente tocado pela devoção de seus parentes. "No céu, eu lhes recompensarei por tudo isso", ele disse a seu cunhado.

Luís entendeu que suas filhas não eram suas. Deus só lhe tinha confiado o cuidado delas, e ele, por sua vez, aceitara generosamente com sua esposa a tarefa compartilhada de "criá-las para o Céu". Sobre o papel profético de Luís na importante e repentina conversão que Teresa teve mais tarde, sua irmã Celina escreve que, "ao lhe conceder um pai incomparável, cuja bondade era uma prefiguração da bondade de nosso Pai do Céu, Nosso Senhor a estava preparando para penetrar, mais do que qualquer pessoa, no mistério da divina paternidade."

E em que Luís Martin pode nos ajudar a refletir sobre nosso relacionamento com nossos próprios pais?

Em 9 de maio de 1897, Teresa escreveu ao jovem Padre Roulland, sacerdote francês enviado em missão à China, de quem ela era irmã espiritual e por cujo apostolado rezava de modo especial:

"Se, como creio, meu Pai e minha Mãe estão no Céu, devem olhar e abençoar o irmão que Jesus me deu. Desejaram tanto um filho missionário! Contaram-me que antes de eu nascer, meus pais tinham a esperança que seu anseio fosse enfim se realizar. Se tivessem podido penetrar o véu do futuro, teriam visto que, com efeito, era por mim que o desejo deles se realizaria. Dado que um missionário se tornou meu irmão, é também filho deles, e nas suas orações, não podem separar o irmão de sua indigna irmã." [4]

E não é que Teresa, com essas palavras, oferece Luís como um pai para todos nós? Se, como ele, nossos próprios pais foram bons e amáveis conosco, então, na comunhão dos santos, Luís pode juntar-se a eles para derramar em nós o amor do coração de Cristo. Se, no entanto, como muitas das crianças que Luís ajudou no decorrer de sua vida, não pudemos experimentar essa delicadeza por parte de nossos pais, ou se nunca chegamos a conhecê-los, Luís pode ser o instrumento por meio do qual Deus derrama em nós as Suas graças.

São Luís Martin oferece aos pais de hoje um novo modelo de masculinidade e paternidade. Unindo seu amor a Deus com seu amor por sua esposa e filhas, ele entendeu a essência da paternidade: que seu papel como cocriador das almas de suas filhas para glorificar a Deus não acabava com o nascimento, mas continuava por toda a sua vida, enquanto ele as acompanhasse para fazê-las nascer para a eternidade. Como ele mesmo repetia com frequência, ele era um pai "todo para a maior glória de Deus".

Referências

1.    Carta da Senhora Martin para Paulina, de 4 de março de 1877. In: Stéphane Joseph Piat. História de uma família. 3. ed. Braga: Apostolado da Imprensa., p. 49.

2.    Irmã Genoveva da Santa Face. O pai de Santa Teresa do Menino Jesus (trad. do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha). Cotia, 1965, p. 58.

3.    Ibid., p. 63.

4.    Carta 226. In: Santa Teresa do Menino Jesus. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 472.


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